terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Economia de Mercado e a Democracia

Na teoria o mercado perfeito ou ideal é aquele que nenhum agente econômico (empresas, produtores rurais, governo, bancos e consumidores) consegue interferir no preço de uma mercadoria, este se regula sozinho. Na verdade isto só se dá na teoria, na prática é diferente.
Toda empresa quer, precisa e deve dominar o mercado, mas isto é considerado monopólio, de certo modo aceito apenas quando de propriedade do Estado, como algumas empresas que conhecemos. No setor de gás industrial, por exemplo, há diversos projetos de investimentos, no entanto, estão parados por dependerem da Petrobras e de uma regulamentação do mercado pelo governo, por esta razão o nosso gás é o 2º mais caro do mundo.
Quando não há monopólio, as empresas acabam por buscar a formação de oligopólios ou a prática de cartéis. As grandes corporações são hoje verdadeiros oligopólios, como exemplo, podemos citar o caso dos refrigerantes onde apenas 4 (quatro) empresas – menos de 0,5% das fábricas instaladas no Brasil – dominam 80% do mercado.
Estas empresas estão sendo acusadas de comprarem espaços nos supermercados para que os demais não os tenham. Também, oferecem outros produtos aos supermercados e se estes não os querem, forçam a venda dizendo que não irão entregar o produto de maior venda, além de praticarem preços abaixo daqueles de mercado com produtos de 2ª linha a fim de aumentarem o seu domínio e eliminar concorrentes.
Já a prática de cartel seguidamente é vista no noticiário, principalmente, por alguns postos de gasolina que combinam entre si um mesmo preço a praticar na bomba. Todas estas práticas são condenáveis e exigem a intervenção do governo.
O mercado não é santo e muito menos Deus.
O governo pode intervir de diversas formas, mas pouco faz para mudar a questão estrutural da economia, quando muito se vale de medidas conjunturais. A política monetária brasileira, com a cobrança de juros abusivos tem incentivado a entrada de capitais estrangeiros no país e isto vem sendo a causa da valorização da nossa moeda em relação ao dólar americano. Hoje o Real é a moeda mais apreciada no mundo em relação ao dólar, 36%.
Se um brasileiro for ao Uruguai hoje, este poderá comer praticamente dois Big Mac’s lá pelo mesmo valor que se paga um aqui. O nosso é o sexto mais caro do mundo. Aliás, aqui se paga mais por um lanche e um refrigerante do que estes acompanhado de batata frita, mais produto por um preço menor. Isto é picaretagem, engodo.
O Real apreciado torna as importações mais baratas e por esta razão estamos assistindo um verdadeiro “Tsunami” de vinhos importados e outras mercadorias no mercado brasileiro e esta oferta maior tem provocado à queda das vendas dos produtos nacionais e, pior ainda, no caso da uva, uma difícil colocação da fruta produzida na Serra Gaúcha. Como se pode ver o desequilíbrio entre a oferta e a procura, neste caso, é provocado por uma política governamental e não pela “Lei” de oferta e procura, leia-se mercado.
Dificilmente, a economia de mercado consegue promover por si só o equilíbrio entre a oferta e a procura, consequentemente, um preço justo para vendedores e compradores, pois o mercado está sujeito a chuvas e trovoadas, tornando necessária a intervenção do governo, que infelizmente na maioria das vezes não é satisfatória.
Se considerarmos que a produção de uva na Serra Gaúcha representa 90% da produção de vinhos do país, a conseqüência desta política monetária é um verdadeiro desastre para o setor, trágica para as mais de 15 mil famílias vivem da produção de uvas.
Diante desta situação, há um bom tempo, o IBRAVIN - Instituto Brasileiro do Vinho, por decisão de um colegiado, resolveu – acertadamente - realizar diversas campanhas promocionais para melhorar a imagem do nosso o vinho e, consequentemente, aumentar o seu consumo.
Isto foi alcançado, de janeiro a outubro deste ano as vendas cresceram quase 13% em relação ao mesmo período do ano passado.
Hoje, no entanto, a realidade é outra, pois 80% do mercado de vinhos finos, para onde houve maior canalização de recursos, está nas mãos de apenas 3 (três) empresas, que agregam menos de 10% das famílias produtoras de uva da região.
Não é difícil observar isto no momento, mas este fato é uma clara demonstração de que toda a ação deve ser planejada e revista nos momentos oportunos, principalmente, quando os recursos são oriundos de um fundo público, portanto, hoje é preciso inverter estes valores e beneficiar a totalidade das famílias ou o maior número possível delas.
O principal problema atualmente da cadeia produtiva uva e vinho é o preço da fruta, o recebimento desta pela indústria e o pagamento da colheita. Isto pode comprometer o futuro da agricultura familiar da região, pois já se presencia um desemprego invisível no meio rural, uma vez que os filhos dos agricultores precisam trabalhar na cidade para ajudar no sustento familiar.
Não se trata aqui de culpar A, B ou C, não há culpados, principalmente em um setor pouco unido e participativo, mas hoje é no mínimo contraditória a alegação de que a adoção do Selo de Controle Fiscal para vinhos – aquele utilizado na cachaça – irá proteger estas famílias, que momentaneamente estão abandonadas. Tudo isto ocorre pela precária participação política nas entidades – associações empresariais, sindicatos, etc. – e as decisões tomadas acabam por beneficiar a minoria, colocando em risco a democracia.
Como bem diz Frei Beto, nossa democracia não é representativa, muito menos participativa, é delegativa, ou seja, colocamos as pessoas lá e esperamos que elas façam algo por nós, só que nunca cobramos, controlamos, etc. Sem participação, não adianta reclamar, vence sempre o poder econômico, afinal, quem manda é o Deus Mercado e aqui apenas os valores econômicos ditam as regras.

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